Um passeio pelas margens da história

Nestes tempos em que devemos ficar o máximo em casa, convidámos-vos a dar um passeio em segurança, aqui no éter digital, pela zona ribeirinha de Portimão, com a vantagem de poder viajar no tempo!

 

BarracãoBarracão

Barracão

Memória e história costumam andar de mão dada. E aqui vemos um remate da primeira para ajudar à segunda a ilustrar aquela que foi a primeira sala de cinema em Portimão, o “Barracão”. Iniciativa do rico industrial e proprietário António do Carmo Provisório, seria o primeiro animatógrafo local, havendo também espaço para concertos de bandas filarmónicas. A sua construção também aproveitou o tempo de conquista de espaço ao rio, estando localizado no extremo norte do que hoje corresponde ao Largo do Dique. A sua gestão nos anos finais ficou a cargo da Orquestra Semifúsica que, aquando da demolição do “Barracão” por já não ostentar as condições mínimas para uma boa fruição do espaço, acabaria por trabalhar no sentido de construir um cinema de raiz na cidade.

Este traço de memória que ilustra este post também acaba por se ligar à sétima arte, pois foi feito por Júlio Bernardo, o multifacetado artista portimonense que também realizou pequenos documentários que ajudaram a documentar a vida local dos anos 60 e 70.

Largo da BarcaLargo da Barca

Largo da Barca

Daqui, em tempos pré-ponte partia-se para a outra margem na barca de passagem. A travessia entre as margens do Arade foi concedida em 1466 pelo rei Afonso V a Álvaro de Teivas sendo que anos mais tarde, no século XVIII, o bispo D. Francisco Gomes Avelar mandou construir uma calçada no sapal da margem esquerda, cujo término tinha dois pilares em cantaria com a inscrição “a vida presente é uma passagem para a eternidade” num deles.

Depois da construção da ponte rodoviária, o largo da Barca acabou por converter-se no centro de pequenos armazéns dos compradores de peixe, aproveitando a proximidade da lota. A foto mostra-o em 1969, pouco depois do terramoto que assolou a cidade a 28 de Fevereiro de 1969.
Com a deslocação da lota para a outra margem no final dos anos 80, acabou por ser requalificado como um dos espaços de referência da restauração portimonense.

CoretoCoreto

Coreto

No centro da agora Praça Manuel Teixeira Gomes, houve em tempos um coreto, inaugurado nos finais da I República, corria o ano de 1925, com a Banda Filarmónica de Portimão a ser o primeiro de muitos agrupamentos musicais a lá tocarem. Foi o palco final de muitos dos eventos oficiais que se sucederam desde aí, vindo a conhecer o seu final da década de 60, quando foi decidido o seu desmantelamento, começando pela venda das ferragens, parte delas aproveitadas numa vivenda em Porches.

Hoje em dia, no espaço oposto da praça, foi construída uma réplica.

Ponte rodoviáriaPonte rodoviária

Ponte rodoviária

Comecemos por atravessar o rio em seco e sem oscilações de barcas de passagem através da ponte rodoviária. Foi a sua construção em 1876 que motivou o início da zona ribeirinha como hoje a conhecemos, devido à criação do aterro para a sua chegada à margem direita, depois de ter o visconde de Bivar ter conseguido que a nova travessia terrestre do Arade fosse feita em Portimão e não em Silves.

E sintamo-nos cosmopolitas: afinal de contas a Fives-Lille, empreiteira responsável pela construção, também construiu as pontes Alexandre III e das Artes em Paris…

Mercado de peixeMercado de peixe

Mercado de peixe

Por vezes vemos naqueles programas de televisão dedicados às viagens imagens de peixe à venda no chão em pequenas aldeias e vilas piscatórias? Parece bonito e romântico, não é? Talvez seja, mas também desafia as regras da higiene…

Foi com esse espírito, embalados pelo ímpeto da Regeneração fontista que caracterizou a segunda metade novecentista portuguesa que as autoridades locais em Portimão decidiram aproveitar o novo aterro do cais para construir um pavilhão que serviria de mercado para o peixe.
Cumpriria esta função até meados dos anos 50, altura em que foi desmantelado, passando a venda do pescado para o Mercado Municipal na Praça da República.

Jardim BivarJardim Bivar

Jardim Bivar

"Sabe-me bem dar um passeio por aqui depois do trabalho. Enche-me o coração ver que o desenvolvimento desta minha vila não descura estes espaços para os seus cidadãos, que agradável é passear neste jardim e ao mesmo tempo olhar para o rio Arade com os barcos que acabaram de vir da faina para alimentar as fábricas de conserva. Acho que não faltará muito para esta vila passar a cidade”.

Muito possivelmente o estado de espírito do senhor que nesta foto está a passear no então recente Jardim Bivar, primeiro espaço verde de Portimão e que aproveitou o então mais recente talhão do aterro do cais.

FontanárioFontanário

Fontanário

A água é um bem essencial que hoje em dia damos por adquirido com a sua presença nas nossas casas por via canalizada e/ou engarrafada.

Contudo o acesso a água potável não é algo assim tão recente em termos históricos. Veja-se que em Portimão somente em 1889 é concessionada a distribuição pública de água à companhia Sárrea Prado e Comandita que começa a disponibilizá-la ao público em 1902 a partir da captação do Barranco das Canas, situado no extremo norte do concelho, inaugurando-se fontanários como o da foto, localizado junto da ponte rodoviária.
Refira-se, como nota de curiosidade, que um dos sócios da empresa, o eng. Ângelo de Sárrea Prado já tinha sido um dos fundadores da Companhia de Águas de Luanda.

SapalSapal

Sapal

No passado dia 02 de Fevereiro comemorou-se o Dia Mundial das Zonas Húmidas, importantes ecossistemas derivados do choque entre a água doce e salgada, da qual o estuário da ria de Alvor é o mais importante testemunho concelhio.

Mas se falarmos em sapal, vem também à cabeça um dos mais conhecidos topónimos portimonenses. É que os mais novos já não se não têm presente essa imagem mas o rio Arade ia entrando pela zona do Largo do Dique, alagando a área até ao actual Largo do Município. E como a foto mostra, até dava para produzir sal no que é agora o interior “sequinho” da cidade!


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